Anjo

Posted by : Ewerton Vulto Sena | quinta-feira, 6 de julho de 2017 | Published in

Estava sentado diante da televisão. A sala minúscula dava para um quartinho onde cabiam uma cama e uma pequena cômoda com seus livros. Eram muitos. Uma pequena abertura levava ao banheiro, no qual havia um sanitário e um chuveiro mal instalado no piso rachado. Na parede, ladrilhos sujos e um buraquinho, feito por ele próprio, onde colocava o sabonete, a bucha e o xampu. Tinha mais livros do que xampu.

Na TV, uma reportagem qualquer sobre a guerra civil na Inglaterra dava um clima sobrecarregado ao lugar. Ou seria a fumaça de seu ultimo Derby que lhe dava aquela sensação esquisita?
       
Ao fim das duas esfihas de carne e do copo de Kuat quente, levantou-se encaminhando até a porta. Girando a maçaneta fria sentiu o ar daquela tarde iluminar seu rosto. Hesitou em sair. O dia estava maravilhoso e precisava de mais cigarros. Tinha que sair. Saiu.
       
Na fila do caixa com seu velho e inseparável cigarro nas mãos, ponderava se a covardia que o colocava em cheque naquele mercadinho medíocre da esquina não o faria mais mal do que a doença que carregava consigo. Chegou sua vez. O coração bateu mais forte, a respiração piorou, não conseguia olhar para frente. Ela era muito bonita. Quase desmaiou quando ouviu a voz mais doce do mundo:
       
- Mais alguma coisa senhor?
       
Diante de seus olhos estava a garota com quem sonhava todas as noites desde que mudara para aquele cortiço no outro lado da rua. O simples movimento de passar o aparelho no código de barras do produto e dizer “R$3,30, por favor,” era extremamente delicado e o levava a loucura.
       
- Mais alguma coisa senhor? – Repetiu.
       
“Meu deus! Como ela é linda”.

Passou a mão no boné da Levi’s ainda sujo com o pó daquele sofá imundo.

- Vou levar esse xampu – Apontou.

Sabia que só tinha dinheiro para o cigarro, mas queria mesmo levar o xampu. Se levasse, talvez ela o olhasse de outro jeito na próxima vez que se vissem. Subitamente continuou apontando o xampu até que ela o tocasse e colocasse no balcão.

Abriu a carteira. Ao lado do titulo de eleitor e seu RG com a foto de quando ainda tinha 16 anos, apenas duas notas de dois reais.

- Esqueça, vou levar apenas o xampu – disse rapidamente.

“Hã? Não, seu idiota! É o cigarro que você quer não o xampu, o xampu não vai satisfazer seu vicio, o cigarro é que lhe dará prazer, o xampu é só mais um produto de beleza, o xampu não te serve cara, pede o cigarro, o cigarro, burro”.

Mas não conseguia corrigir o erro vendo que ela pegava com suas mãos maravilhosas o xampu e apagava no teclado do computador o preço do Derby azul. Olhou o preço do xampu: R$3,50.

Naquela noite não fumou cigarro. Tomou banho, um banho que jamais tomara na vida, pois tomou banho com o xampu que ela tocara. O xampu abençoado pelo belo anjo que trabalhava num mercadinho da esquina. O anjo ao qual dirigiu a palavra pela primeira vez em meses naquela tarde.

Riu. Como pudera comprar aquele xampu barato ao invés de seu bom e velho Derby? Só podia estar enlouquecendo. É, só podia estar ficando maluco.

Lembrou do fino decote na blusinha azul-marinho e dos braços brancos como a neve que revelavam uma pequena tatuagem no pulso. Uma tatuagem quase invisível por causa da pulseira do relógio rosa bebê que combinava com a presilha na cabeça.

Tinha falado com ela, jamais esqueceria esse dia. Estava tomando banho com um xampu novo por causa dela. Não ia mesmo esquecer aquele dia.

Quando prometeu a si mesmo nunca mais ficar tão sem graça na frente dela, sentiu um aperto no peito.

Repentina e sufocadamente a dor aumentava. Ele se curvou levemente no pequeno Box. Respiração rarefeita, coração cada vez menos pulsante. Água caia-lhe pelo rosto. Tentou segurar no xampu quando levou um tombo inevitável. Falha na visão. Tontura.

Afinal, o seu inseparável Derby não iria desistir dele tão fácil. Ia lutar para tê-lo. Estava lutando para tê-lo dentro do próprio pulmão naquele exato momento. Chegava a hora. Tinha ganhado a batalha quando deixara o cigarro no balcão naquela tarde, mais tinha acabado de perder a guerra, seu pulmão empregava agora suas ultimas forças para lutar contra seu câncer. Perdeu completamente o ar. O pulmão desistira da guerra. A ultima coisa que viu foi a imagem de um anjo branco aproximando-se dele. O anjo mais lindo que já tinha imaginado na vida. Um anjo com uma pequena tatuagem no pulso destorcida pelo que parecia a pulseira de um relógio rosa bebê. Nunca mais viu as presilhas que combinavam tão bem com aquele relógio. Nunca mais a viu. Nunca mais viu ninguém.


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