A Estrada

Posted by : Ewerton Vulto Sena | quinta-feira, 6 de julho de 2017 | Published in

Era uma tarde de forte chuva. Uma tempestade que a muito não acontecia na cidade.

Não se podia ver muita coisa ao longe, as gotas eram grossas e pesadas, daquelas que dão sono. O aguaceiro trouxera uma neblina aquele ambiente urbano um tanto quanto fria demais para pra se querer ver algo.

Debaixo de um guarda-chuva velho e surrado que encontrara por acaso, a mãe carregava sua filha um pouco desajeitada no colo. Em meio ao desespero de protege-la, a moça de meia-idade caminhava tomando fortes rajadas de vento na face, e, já fazia algum tempo, as poucas roupas que vestia estavam – assim como seu longo cabelo castanho - empapadas tanto com a água da chuva quanto de suor.

A menina ia bem protegida nos braços da mãe, na mão um brinquedo qualquer e na cara um sorriso ingênuo de criança que não sabe nada sobre o que está acontecendo. Ela tinha acabado de completar dois anos de idade, não andava muito bem ainda, mas já tinha arriscado alguns sons com a boca que a mãe tinha orgulho em dizer que eram palavras.
      
A tempestade só piorava a cada segundo e a gora mais parecia um furacão de tão furiosa. As duas desamparadas no meio da chuva procuravam um abrigo onde pudessem ficar seguras por algum tempo.

Há pouco tempo, não muito longe dali, uma enxurrada levara tudo o que elas tinham, fogão, a pequena geladeira, cama, só sobraram as duas, agora mais do que sozinhas. Por pouco conseguiram sair da casa antes que o telhado se desfizesse em suas cabeças. Agora caminhavam ambas juntas esperando apenas sobrevier á aquela chuva.
      
A mãe olhou para a filha, seu rosto molhado se confundiu com o que pareceu uma lágrima. O que seria delas agora? O que ela, uma mãe solteira como muitas outras podia fazer pela filha sem ao menos uma casa para morarem. Não tinha emprego fixo, tampouco uma maneira de recomeçar. Pensou sinceramente que a menina com certeza estaria bem mais feliz no céu naquele momento.
       
No meio de suas indagações sobre a crueldade da vida deixou escapar um sussurro: O que faremos agora meu bebê.

No que pareceu uma surpreendente resposta da menina á pergunta da mãe, ouviram-se três palavras:
     
- A estrada, mama!

Sim, a garota tinha falado. Estranho foi ter dito aquilo naquele momento, já havia arriscado algumas palavras antes, mas nunca tinha dito algo tão intrigante antes. Era uma fase realmente muito diferente do que a mãe esperava.

- A estrada, mama! – repetiu a menina.

A mulher percebeu que a garotinha apontava para frente com seu pequeno indicador. Seguiu com o olhar o dedo da menininha, mas a chuva era tão forte que não se podia ver nada além de um grande prédio histórico quer ficava a menos de uma quadra de onde estavam.
     
A menina continuou a repetir aquela frase sem nexo apontando para o prédio. No meio da chuva, um pouco adiante, as duas avistaram uma ponte. Sem pensar duas vezes a mãe largou o guarda-chuva – que a essa altura já não servia de muita coisa – e correu desesperada para debaixo da ponte com a menina nos braços. Apesar dos ventos fortes, ali as pesadas gotas não as acertavam e era um lugar suficientemente protegido pra ficar até a chuva passar.
     
Com calma, a mãe se deitou ao lado da filha na parte coberta, tentando servir-lhe de cobertor. Já havia anoitecido e com um cansaço que superou facilmente o frio, chegava a hora de dormir. A menina ali, envolta aos braços da mãe não parava de olhar para frente com um leve sorriso no rosto, como se algo acima das gotas que fechavam o céu a alegrasse. Aos poucos, ambas adormeceram na gélida calçada cobertas pelo som do vento. Mãe sobre á filha.
      
Choveu a noite inteira e havia acabado de parar de chover quando a mãe abriu seus olhos.

Um desespero tomou-lhe conta quando rapidamente percebeu que sua filha não estava mais em seus braços. Levantou. Olhou a redor em vão – Onde foi parar minha filha, Deus? – perguntava olhando desesperada de um lado para o outro e soluçando sem parar.

O que aconteceu com aquela criança no meio da noite?  
               
Não se sabe ao certo, o fato é que em meio aquele choro e desespero todo, a mãe pode olhar um pouco mais adiante. Há um pouco menos de uma quadra dali viu o prédio histórico que a menina apontara na noite anterior, era possível ver um belo arco-íris se formar acima dele. 


No rosto da mãe surgiu um leve sorriso quando percebeu que esse arco-íris olhado de longe, parecia uma linda e colorida estrada para o céu.

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