Ateísmo e Ang Lee – Critica "Life of Pi"

Posted by : Ewerton Vulto Sena | quinta-feira, 6 de julho de 2017 | Published in


Bom, antes de qualquer coisa é preciso deixar claro que este texto falará sobre o que eu considero ser uma das melhores obras de Ang Lee, o filme de 2012 intitulado “As aventuras de Pi”.

Já assisti esse filme algumas vezes e como um cinéfilo e ateu assumido que sou, fiz uma reflexão sobre a mensagem que a película passa e resolvi escrever esse texto para juntar um pouco as coisas.

Para aqueles que estão lendo isso, recomendo que tenham assistido o filme, mais do que isso, tenham o entendido. Assim, vai ficar mais fácil entender o meu ponto de vista.

Mas, de qualquer maneira, fiz o texto de forma bem didática para aqueles que ainda não o assistiram. Portanto, se você ainda não assistiu e interessa-lo ler as próximas linhas, vá em frente!

Com o nome original de “Life of Pi” o diretor de “O segredo de Brokeback Montain” e “O tigre e o Dragão” cria uma obra excelente cuja produção enche os olhos do espectador e o roteiro (de igual excelência) tenta ao meu ver converter as pessoas a crença de um ser maior que rege o mundo e olha por todos: Deus (qualquer que seja esse Deus).

Nesse ponto do texto, aqueles que me conhecem e sabem que sou ateu percebem a contradição acima e questionam: Mas, se você é ateu, como pode gostar de um filme que, pode-se dizer, tem o objetivo de converter as pessoas à crença de um Deus?

Por isso o titulo do texto. Explicarei.       
Primeiro, para aqueles que não assistiram a obra (que perdeu injustamente em minha opinião o Oscar para “Argo”, que não é fraco, mas inferior a essa produção), devo contar-lhes um pouco da história. Então lá vai...

Spoiler abaixo (sim, é necessário):

O filme conta a história de Piscine Patel (apelidado de “Pi”) um garoto que sobrevive a um naufrágio envolvendo sua família em um navio cargueiro com animais de varias espécies. Ele fica sozinho por vários dias com alguns desses animais (uma zebra, um orangotango, uma hiena e Richard Perker, um tigre de bengala adulto) em uma pequena jangada no meio do oceano.

Até aí tudo bem, o que torna o filme mais do que só isso é o roteiro (que também perdeu o Oscar), a fotografia de Claudio Miranda (essa ganhou!) e o final surpreendente.

No começo do filme, o personagem principal da historia, já adulto, recebe um jornalista em sua casa, para o qual contará toda a história.

O jornalista está lá, pois pretende, claro, escrever sobre a história e, em uns dos primeiro diálogos, esse jornalista diz que ouviu falar que Piscine tem uma história que o fará começar a acreditar em Deus, e aí começa a ouvir a história.

Com produção mágica e cenas que fazem quem viu o filme em 3D achar George Lucas um bosta (ok, tentativa de piada exagerada aqui...rs), o cara vai contando toda a sua jornada que envolve, além do tigre citado, o orangotango boiando em um cacho de bananas, uma ilha carnívora cheia de suricatos (rápido, que a hiena já vem!) entre outras coisas. A aventura termina com um resgate dele e o feroz tigre numa praia no meio do nada. Mas o filme ainda não terminou.

No hospital, se recuperando da tragédia, nosso garoto recebe caras da seguradora do navio que também querem uma história, mas é claro que eles querem uma história que envolva menos alucinógenos que a contada. E então, para satisfazer esses caras, o garoto inventa outra história. Na curta cena em que ele conta essa história, o roteiro revira todo o filme e você acaba percebendo algo surpreendente: O garoto estava imaginando tudo o tempo todo, os animais na jangada são alegorias dessa imaginação, a hiena é o cozinheiro do navio que mata o orangotango (que é sua mãe!) e Richard Parker é o lado mau do próprio Pscine, desperto pelo assassinato de sua mãe.


Legal seria adentrar as metáforas todas que o filme trás neste ponto, mas para os fins deste texto, bastam as citadas acima.

Bem, ao final do filme então, temos duas histórias: a espetacular e cheia de efeitos que envolvem um tigre de bengala e uma ilha carnívora. E a triste e trágica contada no final para os caras da seguradora, sobre um menino que fica preso em alto mar lutando para sobreviver e em uma batalha psicológica consigo mesmo após ter matado o assassino de sua mãe.

A religião volta ao filme com a pergunta final de Piscine, o contador das duas histórias ao jornalista:

"Qual é a melhor história em sua opinião?"

"A do tigre" – responde o escritor.

"Com Deus também funciona assim!" – Diz Piscine em uma frase que poderia por fim ao filme sem acrescentar mais nada.

Certo, com a história do filme contada, vamos as minhas considerações sobre o filme, ateísticamente falando.

Como tinha falado, o filme é uma das coisas mais belas que tive o prazer de ver em minha curta vida como um cinéfilo assumido.

Ang Lee claramente tenta com ele alavancar uma conversão das pessoas céticas (como eu) em uma crença em algo maior, um Deus.

Só que como cético ateu que sou, ficaria com a segunda história. Por quê?

Porque como cético ateu, eu utilizo a minha linha de pensamentos para chegar à conclusão que é mais provável que ele tenha matado o cozinheiro e inventado toda a história do tigre do que um orangotango conseguir chegar ao barco boiando em bananas ou uma ilha cujo solo é carnívoro, cheia de suricatos, existir!

Ponto.

Veja bem, não estou dizendo que a história que o jornalista escolheu (Deus) é impossível. Estou dizendo que é improvável, ou pelo menos, menos provável que a história que eu escolheria (a de que o garoto ficou louco por um naufrágio matar toda a sua família e um cozinheiro de merda assassinar sua mãe na sua frente).

Como ateu, prefiro a segunda história, mas não posso provar (e ninguém pode) que a primeira história não tenha sido real.

Há quem prefira a primeira história, ache-a mais bela e de um sentido melhor à vida. Nada contra, cada um acredita no que quiser. O erro está em levar a história 1 tão a serio a ponto de achar que quem prefere a 2 está errado, e vice-versa.

Esse é o ponto em que queria chegar, o roteiro, efeitos visuais, fotografia e história do filme de Ang Lee são excelentes. Nem Deus (não, droga, ele não existe...kkk) pode negar isso!

Para mim, o diretor conta duas histórias no filme e dá a entender que, para ele, a maior delas (a que toma 99% do filme) é a melhor para todos acreditarem. Eu discordo, prefiro a visão mais racional das coisas. Questão de opinião, cada um tem a sua. Ang Lee expôs seu ponto de vista em ”As aventuras de Pi” e eu expus o meu aqui.

PS: É interessante notar que não há distinção de religião no filme. Aliás, há varias referencias a religiões diferentes (o próprio Patel acredita em Alá).

A experiência de ver o filme nos trás algo único, pois existem infinitas maneiras de interpretar a mensagem. O filme é lindo por fora e cada um de nós que olhar para ele, encontrará uma maneira de achá-lo bonito por dentro também.


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